A ESTRELA DE NATAL

Meu colega Doneivan Ferreira me enviou este texto. Mesmo fora da época do Natal eu achei interessante divulgar o que ele considerou uma reflexão provocativa. Curiosamente eu já escrevi num boletim da igreja um pequeno artigo intitulado “Nem Três, nem Reis, nem Magos” com alguns pontos em comum.


A época natalina me fez pensar nas especulações que costumam emergir envolvendo a estrela que guiou os “Reis Magos” ao menino Jesus. Aproveito a ocasião para abordar trechos de uma pesquisa que serve como reflexão natalina. Como o assunto é astronomia, recomendo para um aprofundamento dos estudos os trabalhos de Hugh Ross, Ph.D., doutor em astrofísica e autor de vários livros, incluindo “The Fingerprint of God” (Promise Publishing Co. Califórnia, 1991).

Como pode ser verificado em várias ferramentas de grego antigo, a utilização da palavra “magos” em várias versões bíblicas na língua portuguesa, talvez não seja a mais apropriada para designar os homens que procuravam o menino Jesus. A palavra grega “magos” tem origem babilônica e pode ter vários significados, incluindo: um homem da ciência, um sábio, um astrólogo, um profeta, ou vidente. Lendo o livro de Daniel, podemos facilmente associar esta designação aos filhos de Judá (Daniel, Hananias, Misael, e Azarias, respectivamente chamados pelos babilônicos por Beltessazar, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego).

Estes homens exerceram a função de conselheiros na corte real da Babilônia (Daniel 2:48-49). Teriam eles sido astrólogos, supersticiosos e esotéricos? A narrativa indica que Daniel e seus amigos, apesar de serem instruídos em todo conhecimento do Oriente, eram adoradores e submissos ao Deus verdadeiro. Analisando estas informações e fazendo uma comparação com a narrativa de Mateus, conclui-se que os sábios também tinham conhecimento de profecias messiânicas (talvez até algumas desconhecidas hoje), pois foi através da interpretação destas que eles fundamentavam sua esperança de ver o Messias (“…porque vimos sua estrela no Oriente, e viemos para adorá-lo”, Mateus 2.2).

Vale lembrar que a ciência da Babilônia era muito avançada (e.g. astronomia e calendários). Assim como sugerido por Ross (2002), também acho razoável assumir que os “reis magos” eram na verdade sábios estudiosos do Oriente, fiéis ao Deus vivo, e parte da herança deixada por Daniel, Hananias, Misael, e Azarias nos tempos do cativeiro babilônico.

Apenas um pequeno texto descreve a visita dos sábios a Jesus. O texto é limitado em detalhes e não permite esclarecer quantos sábios eram, que idade tinha o Menino Jesus (1, 2, 10 anos) e, muito menos, a natureza da estrela ou fenômeno astronômico que os levou a Belém.

Contrariando os dogmas e pressupostos tão difundidos atualmente, o texto não define que eram TRÊS “Reis Magos” (ou sábios). Esta ideia vem provavelmente da suposição de que cada sábio era portador de um dos três presentes mencionados na narrativa de Mateus (ouro, incenso e mirra) (Mateus 2.11). Tecnicamente, os três itens podem simplesmente ser a generalização de todos os presentes. Por exemplo, dois colares de ouro, quatro tipos de incenso, e cinco tipos de mirra; ou, simplesmente, ouro, incenso e mirra. Não existe base para afirmar quantos sábios eram de fato, mas estes poderiam estar em qualquer número igual ou maior que dois.

Apesar da narrativa de Mateus ser contínua, isto não quer dizer que os fatos tenham ocorrido cronologicamente sem interrupções. Não há fundamentos para afirmar que Jesus era ainda um recém-nascido quando os sábios vieram para adorá-lo. Observe que a narrativa sobre os pastores do campo não menciona nenhuma estrela. Da mesma forma, a narrativa sobre a visita dos sábios não menciona uma estrebaria e sim uma casa. Nesta mesma narrativa também não são mencionadas a manjedoura e nem a presença simultânea dos pastores. Pronto, lá se vai nossa imagem de presépio com pastores, manjedoura, reis magos e uma grande estrela sobre eles. Isto serve para demonstrar que muitas vezes baseamos nossas crenças em tradições e não na realidade dos fatos. Por isso devemos ser humildes e abertos a questionamentos.

Quanto a palavra estrela, o termo grego original “aster” pode se referir a qualquer tipo de corpo ou evento celeste, estrela, planeta, asteróide, cometa ou meteoro. No entanto, as três explicações mais aceitas para explicar este episódio são: (1) uma supernova; (2) um cometa; ou (3) uma conjunção de planetas.Supernovae (a forma plural da palavra supernova).

Supernova é um fenômeno tão espetacular que dificilmente passaria despercebido por observadores. No entanto, somente a narrativa de Mateus menciona a tal estrela. Como o fenômeno foi ignorado por líderes judeus e outros sábios da época, este cenário de supernova parece pouco provável para explicar nossa estrela de Belém.

A Supernova é um fenômeno realmente surpreendente. Existe um estudo que sugere que a supernova VELA (ocorrida na constelação de Vela) teria causado mudanças no relógio celular de alguns organismos (“Terrestrial Paleoenvironmental Effects of a Late Quaternary-Age Supernova”, pelo geofísico G. Robert Brakenridge, no Journal Icarus, 1981, vol. 46, pp. 81-93). Brakenridge descreve dados que datam a supernova VELA como tendo ocorrido entre 9300 e 6400 A.C. Estas datas se encaixam dentro de uma possível janela cronológica do Dilúvio de Gênesis. Brakenridge demonstra que VELA teria ocorrido cerca de três vezes mais próxima da Terra que qualquer outra supernova durante a curta existência de seres humanos na face do planeta. Esta talvez seja a maior fonte de raios cósmicos (que afetam proteínas) que atinge nosso planeta hoje.

Cometas – por serem relativamente comuns, também não se encaixam no cenário descrito em Mateus. Devido a frequência com que aparecem, cometas não mereceriam tanta atenção por parte dos sábios e o fenômeno certamente seria melhor explicado por Mateus. Ross (2002) argumenta que, por serem tão bem documentados através da história, se o fenômeno narrado em Mateus fosse de fato um cometa, este, pela narrativa, seria um cometa raro com comportamento singular, e, certamente, provocaria outras citações históricas.

Conjunção de planetas – não há relatos de ocorrências importantes envolvendo alinhamentos ou conjunções planetárias durante aquele período da história. As órbitas dos componentes do sistema solar são profundamente conhecidas e de fácil rastreamento. Além disso, os sábios poderiam distinguir os diferentes planetas envolvidos em uma possível conjunção e aí seriam duas e não apenas uma estrela.

Ross faz uma importante contribuição em um estudo de 2002 sugerindo um fenômeno conhecido por Nova Recorrente (Recurring Nova). Uma supernova ou nova típica (um fenômeno claramente visível), éuma estrela de gigantesca massa que tem seu brilho subitamente intensificado e, em um espaço de poucos meses ou anos, vai perdendo o brilho. Novae não são raros. Estatisticamente detectamos uma a cada dez anos. No entanto, as Novae Recorrentes seriam suficientemente raras para chamar a atenção dos sábios do Oriente e, ao mesmo tempo, suficientemente discretas para escapar a atenção de outros olhos destreinados. A maioria das Novae passam por apenas uma explosão.

Por outro lado, as novae recorrentes, apenas uma pequena fração das novae, podem produzir múltiplas explosões em frequências que variam de meses a anos. Este ciclo de meses ou anos parece satisfazer o cenário narrado em Mateus que indica que a estrela apareceu, desapareceu, e voltou a aparecer algum tempo depois. No original grego, a tradução literal da narrativa é: “Observe a estrela, que eles viram no Ocidente, foi adiante deles até parar sobre onde estava a criança”. Ross (2002) enfatiza que a palavra chave aí é “histemi”: fazer ou causar uma parada; apontar; colocar, por-se, estabelecer-se; ficar firme, fixar-se; fazer algo ou alguém manter sua posição; ou sustentar algo. Portanto, o texto não é conclusivo quanto a distinguir entre um processo de guiar ao longo de uma rota geográfica e um aparecimento, desaparecimento e reaparecimento supernatural e de sincronia precisa. Sem querer forçar uma aplicação ao texto, a narrativa original indica que a primeira aparição não guiava geograficamente os sábios, o que corrobora para a tese de uma nova recorrente.

O que é mais importante para nós cristãos, é a lição da esperança depositada na vinda do Messias. Os sábios investiram seu tempo (possivelmente meses), energia, e tesouros na busca do Messias. Eles queriam adorá-lo.

Seja como for, seja por um evento supernatural ou por um fenômeno natural em perfeita sincronia com os acontecimentos, a estrela foi de fato um milagre que Deus usou para sua Glória. Nenhuma das possibilidades altera minha fé. No entanto, a possibilidade de ter sido um fenômeno astronômico, uma nova recorrente, me faz pensar que este evento teria demorado alguns milhares ou milhões de anos para se tornar visível para nós, já que até a luz viaja limitada pelo tempo (299.792,458 km/seg., ou seja, em 1 ano a luz viaja aproximadamente 9.5 trilhões de Km, e ainda, a luz do Sol demora cerca de 8 minutos para ser vista por nós na Terra). Poderíamos dizer que o brilho da estrela era como um cartão enviado há muito tempo atrás, antes mesmo da existência dos seres humanos, chegando na hora exata para anunciar que a Paz Verdadeira já estava entre nós. Um sinal que viajou rasgando com brilho surpreendente um espaço escuro, silencioso e vazio. Um sinal de tão longe para anunciar que a Paz estaria tão perto, tão ao alcance de todos, tão disponível, mas, de igual modo, facilmente rejeitada.

Nesta data celebramos o Natal, o marco histórico do nascimento de Jesus. Se você já conhece esta Paz, faça brilhar a sua luz, pois o sinal luminoso agora é você. Assim como ocorreu no passado, esta luz segue viajando cercada de escuridão que precisa de luz, de silêncio que precisa de canção, e de vazio que precisa ser preenchido.Feliz Natal. Feliz Ano Novo. Muita Paz!

Doneivan F. Ferreira (Dez/2006)

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Uma resposta a A ESTRELA DE NATAL

  1. Georgia disse:

    Excellent read, I just passed this onto a friend who was doing some research on that. And he just bought me lunch as I found it for him smile Thus let me rephrase that: Thanks for lunch! “Any man would be forsworn to gain a kingdom.”

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