Terremotos: Fatalidade ou Castigo Divino?

Certa vez ouviu um pastor pregando que o terremoto que destruiu boa parte do Haiti era conseqüência direta dos pecados do povo, principalmente feitiçaria. Apesar de ter usado um texto bíblico (velho testamento) para justificar seu ponto aquilo me incomodou. Principalmente por conhecer o que são e como acontecem os referidos tremores de terra.

Há muito misticismo sobre estes fenômenos naturais que são muito mais freqüentes do que se pensa. O tsunami que atingiu o Japão em março de 2011 é apenas a versão marítima dos terremotos por isso chamamos de maremoto. A crosta terrestre não é totalmente contínua e lisa. Existem placas de rocha sólida, as chamadas placas tectônicas, que se movem lentamente sobre rocha liquefeita: o magma. Os terremotos surgem nestas junções devido ao atrito, distensão e impacto das placas umas com as outras.

Por que a percepção pública da mídia sugere que esses fenômenos estão ficando piores à medida que o tempo passa? Na verdade, sempre houve atividade sísmica ligada às bordas destas placas tectônicas e sempre vai haver (enquanto o mundo durar). Um mapa destas placas sobreposto epicentros de terremotos mostra claramente que é de se esperar que haja tremores no Japão, Haiti e outros lugares. Há um chamado “cinturão de fogo” ao redor do Pacífico onde as atividades sísmicas são freqüentes.

O que mudou hoje em dia? A velocidade das notícias e o aumento da população. Antes havia maremotos que varriam ilhas inteiras que estavam desertas ou simplesmente ninguém noticiava o ocorrido.

Figura 1: Os pontos vermelhos são os terremotos nos últimos seis meses. Vejam os limites das placas (gráfico produzido pelo site http://www.wolframalpha.com/).

E ouvireis falar de guerras e rumores de guerras; olhai não vos perturbeis; porque forçoso é que assim aconteça; mas ainda não é o fim. Porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino; e haverá fomes e terremotos em vários lugares.” Mat. 24:6-8

O Haiti está bem na junção de placas e há anos não havia um grande terremoto lá. Isto ia acontecer mais cedo ou mais tarde. De certa maneira, estava demorando a acontecer o que era inevitável. Podemos pensar nisso como uma forma de misericórdia divina ao invés de manifestação de Sua ira.

Figura 2: Terremotos nos últimos 30 anos no Haiti (gráfico produzido pelo site http://www.wolframalpha.com/).

… para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos.” Mateus 5:45

Neste trimestre estamos estudando sobre o livro de Jó na EBD. A discussão sobre o sofrimento dos justos nos põe diante de uma visão humana baseada na idéia de retribuição. Os amigos de Jó concluíram que ele havia pecado muito para sofrer tanto. Deixo algumas perguntas desafiantes: Não havia crentes fiéis na região das Serras do Rio quando a inundação destruiu quase tudo? Países onde não há furacões e tremores são mais justos, ou menos pecadores, que aqueles onde isso é comum?

Devemos conhecer melhor as coisas antes de interpretá-las literalmente baseadas em uma visão legalista. A misericórdia de Deus se mostra a cada um de nós principalmente porque somos pecadores. O crente não está livre de sofrer com calamidades.

… No mundo tereis tribulações; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” João 16:33.

Para saber mais sobre terremotos e placas tectônicas eu sugiro os seguintes links:

Publicado em Geral | Deixar um comentário

Um Cometa pode mudar uma Vida?

Nesta semana próxima do Natal eu tenho acompanhado com certa inveja os
relatos (e fotos) dos meus colegas astrônomos amadores sobre o cometa Lovejoy.
Três dias seguidos eu acordei de madrugada pra tentar ver o tal cometa e nada. Sem
um horizonte desimpedido e com excesso de luz artificial foi impossível ver. O prédio
ao lado da minha casa barrava uma parte do nascente e muitas árvores estavam na
frente. Mas não foi este cometa que mudou minha vida.

Em 1986, o cometa Halley me pegou numa crise existencial. Estudando
Astronomia na UFRJ queria trabalhar, ter meu dinheiro e casar. O curso puxado
somado a minha pouca base de colégio público geraram a primeira reprovação da
minha vida. Foi bem difícil pra mim. Cheguei a pensar em desistir e mudar de curso
quando fiquei sabendo de um estágio no Museu de Astronomia. Comecei minhas
atividades lá acompanhando o cometa noite após noite e mostrando para o público
aquela manchinha branca contra o fundo de estrelas. O cometa passou. O estágio
virou emprego. Graduei-me na universidade e formei uma família. Realmente o Halley
deu uma nova direção a minha vida acadêmica e profissional. Foi uma grande virada,
mas há algo que pode mudar a vida da gente de forma mais profunda e permanente
do que a mera passagem de um cometa.

Ontem, às 4h da madrugada, empoleirado numa escada precária em cima do
meu telhado, tentando ver o tal cometa Lovejoy, me ocorreram muitos pensamentos
interessantes e uma curiosa metáfora. Primeiro, imaginei o que um visinho meu
pensaria me olhando: no mínimo que eu era maluco. Mas subir ali em cima àquela
hora, sob certos aspectos, era um ato de fé que não se perdeu pelo fato de eu não ter visto nada. Eu sabia que ele estava lá, sabia para onde olhar mesmo não vendo nada.

Muitos não sabiam da existência do Lovejoy e outros não estavam nem aí pra ele
mesmo já ouvindo falar dele. Eu tinha planos de ir pra um lugar mais alto ou uma beira
de praia onde se pudesse ver o nascente, mas me deu preguiça e medo de pegar um
ônibus àquela hora.

Minha visão do nosso relacionamento com Deus é bem parecido com minhas
tentativas frustradas de ver o cometa Lovejoy. Você quer conhecer a Deus, porém
existem preocupações e inquietações deste mundo competindo pela sua atenção.
Existe muita luz artificial que simula a Luz Verdadeira e ofusca nossos “olhos
espirituais”. Há uma série de obstáculos externos que estão na frente e não te deixam
ver Deus e seus propósitos. Veja no evangelho de Mateus 13:3-23 e entenda do que
estou falando.

E se eu vise o tal cometa? Não ia me sentir bem em gritar pros meus visinhos
pra verem também. Não é do interesse deles acordar cedo para ver um cometa
brilhando contra o céu da alvorada mesmo sendo algo tão raro. Assim me ocorreu
que existem obstáculos internos também. Se eu me esforçasse mais com certeza
conseguiria ver. Mas para isso teria que ir pra um lugar alto, escuro e distante. Isso
implicaria em trabalho, muito trabalho. Muitas vezes sabemos o que precisamos fazer
pra conhecer os propósitos de Deus, contudo nos acomodamos e não fazemos. Na
hora fiquei com medo de ser assaltado e de ser taxado de maluco. Estava cansado
demais para correr atrás de um melhor ponto de vista. E assim por medo e comodismo
deixamos de experimentar algo extraordinário.

Conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor; a sua saída, como
a alva, é certa…”
Oséias 6:3

Ao longo da minha vida de astrônomo vi uns três cometas. O Hyakutake era
claramente visível no céu à noite (foi a minha melhor visão) O Hale-Bopp eu vi no
entardecer entre as árvores (muito brilhante). O Halley foi um dos piores espetáculos,
mas foi o que fez a maior diferença. Às vezes queremos ver grandes prodígios,
mas estes não conseguem ser mais impactantes como as coisas sutis. Sem efeitos
especiais, sem vozes do além, sem cores e clarões… Apenas uma luz firme e sutil.
Meu encontro e minha vida diária com Deus têm sido assim. E isso realmente mudou
a minha vida. Às vezes muitas coisas se interpõem entre mim e meu Deus. Algumas
destas coisas são externas e devemos buscar um ponto de vista melhor. Outras
coisas são internas e atitudes ousadas devem ser tomadas. Mas aconteça o que
acontecer eu sei que Ele está lá, e sei para onde devo olhar. Mesmo que eu não
possa ver, principalmente quando eu não posso ver, pois isso é . “Sei que meu
redentor vive” (Jó 19:25). Ver astros raros e belos como cometas podem impactar os
amantes do céu de forma duradoura. Entretanto encontrar-se com a vontade de Deus
certamente mudará sua vida para sempre.

Publicado em Geral | 2 comentários

Nem Deuses, Nem Astronautas: Apenas Homens

Manifestações Religiosas no Espaço

Naelton Mendes de Araujo – sexta-feira, 3 de julho de 2009

Há umas semanas estou pesquisando para uma palestra que ministrarei na Fundação Planetário sobre os 40 Anos da Corrida a Lua (estão todos convidados – 08/07/09 as 20 h). Deparei-me varias vezes com histórias pitorescas sobre astronautas. Nem todas são confiáveis, pois aquela era um época de guerra fria onde a propaganda política permeava todos os assuntos, sobretudo a astronáutica.

O primeiro homem a ir para o espaço foi Yuri Gagarin (foto ao lado) no Vostok 1 em 1961. Como símbolo máximo da supremacia espacial dos soviéticos suas declarações tinham um peso que não podia ser desprezada pela propaganda ideológica socialista. Todos já devem ter ouvido da frase: “A Terra é Azul”. Você pode, hoje em dia, ler uma transcrição completa do que o famoso cosmonauta disse durante o seu voo de 108 minutos. Não encontrará esta frase. Pura propaganda.

Outra frase fictícia atribuída a Gagarin: “Eu estive no céu e não vi Deus lá em cima”. Em 2006, o Coronel Valetim Petrov, amigo intimo de Gagarin, disse que ele nunca proferiu esta frase. A origem parece ser uma frase de Nikita Khrushchev, antigo presidente da URSS, num discurso anti-religioso. Petrov disse que Gagarin foi batizado numa igreja cristã ortodoxa.

As viagens espaciais tem um quê de semi-divino, épico e grandioso para imaginação humana. Relacionar o espaço com Deus parece ser algo natural para a maior parte das pessoas. Criamos uma aura heróica ao redor da imagem dos astronautas. A propaganda se vale deste glamour intelectual para reafirmar ou negar idéias.

A Apolo 8 (emblema ao lado) foi a primeira nave tripulada a dar a volta em torno da Lua. Era a primeira vez que uma missão tripulada americana realmente tomava a dianteira na corrida espacial. Na noite do dia 24 de dezembro de 1968 a tripulação mandou uma mensagem de Natal muito especial para o mundo que assistia atentamente. Os astronautas Frank BormanJames Lovell e William Anders começara a recitar:

“No princípio criou Deus os céus e a terra.
A terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo,
mas o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas.
Disse Deus: haja luz. E houve luz…”

Eles leram os 10 primeiros versos do capítulo 1 de Gênesis. Imagino o impacto destas palavras milenares naqueles três homens. Como seria olhar o globo azul da Terra  flutuando no espaço negro e vazio? Imagine essa visão a partir da escotilha de uma apertada cápsula espacial. Isso causou aborrecimento mais tarde. Ativistas do ateísmo moveram um processo judicial contra a NASA. Eles queriam que não se permitisse que astronautas expressassem manifestações religiosas no espaço.

Na missão Apollo 11 (Julho de 1969), Buzz Aldrin (foto ao lado), um presbiteriano convicto, levou pão e vinho em um estojo e tomou a ceia na Lua. Na época ele fez isso em segredo por conta do litígio jurídico que a NASA enfrentava. Hoje a igreja de Buzz, a Webster Presbyterian Church comemora anualmente a chamada Santa Ceia Lunar no domingo mais próximo do 20 de julho.

São casos curiosos onde declarações ou atitudes de fé tomaram proporções políticas e ideológicas. Quando a manifestação de fé de um individuo é tão importante? É fácil responder: Sempre! Você não precisa ser astronauta para fazer a diferença ao declarar sua fé publicamente. Sua fé faz parte de você. A liberdade religiosa passa pela livre manifestação das suas crenças. É um direito humano: de astronautas e de meros mortais como todos nós. Se você crê demostre que crê!

Sugestão de tema para o próximo artigo: Qual a idade da Terra? Por que esta pergunta gera tanta polêmica entre criacionistas e ateístas?

Referência:
Áudio da Apollo 8 leitura do Genesis na véspera de Natal de 1968 (115 segundos): http://www.hq.nasa.gov/office/pao/History/40thann/wav/ap8_xmas_eve.wav

Publicado em Geral | 1 comentário

Qual é o seu signo?

Esta tem sido uma forma comum de puxar conversa. Há quem não faça nada sem antes consultar os horóscopos para ver se os astros estão favoráveis ou não.

A idéia de que os planetas em seu movimento através da faixa do céu chamada de zodíaco influencia nossas vidas é antiga. Remonta a difusa época em que a observação da natureza começou a sugerir previsibilidade. Um exemplo disso acontecia no Egito. O sol ao nascer junto com a estrela mais brilhante do céu, Sírius, a alfa da constelação do Cão Maior, coincidia com a cheia do Nilo, vital para a agricultura egípcia. Eles a chamaram Sótis e passaram a acompanhar se movimento em relação ao Sol e com isso tinham um indicador visual de tempos e ciclo, isto é: um calendário.

Prever é poder. É quase mágico a capacidade de prever fenômenos celestes e ainda mais impressionante quando estes fenômenos regem situações vitais aqui na Terra. Assim surgiu um conhecimento que magos, sacerdotes e sábios usaram para seu próprio status na sociedade. Imagine o sacerdote caldeu subindo ao alto de um zigurate (uma espécie de pirâmide escalonada: a torre de Babel descrita no Genesis era um zigurate). Ele sobe sempre a mesma hora pouco antes do Sol nascer. Seus servos e auxiliares vêem todos os dias ele erguer a mãos e objetos curiosos para o céu como se recebesse uma mensagem dos deuses. Assim um dia ele desce e diz algo do tipo: “Dentro de três dias as chuvas virão preparem a terra, semeiem. Vistam-se de azul e branco e realizem uma cerimônia para a poderosa Nossa Senhora do Céu”. Passam os dias e pronto: Não é que aconteceu como ele disse! Cá entre nós: os gestos manuais não passavam de medidas angulares. Os objetos eram instrumentos que mediam dia após dia o movimento do Sol, da Lua, planetas e estrelas. Só foi usar o conhecimento dos movimentos celestes como um calendário para prever um fenômeno natural cíclico como já estava sugerido no texto abaixo:

E disse Deus: …haja luminares no firmamento do céu, para fazer separação entre o dia e a noite; sejam eles para sinais e para estações, e para dias e anos. (Genesis 1:14)

Mas o poder corrompe. Logo estes calendaristas místicos não se contentaram em prever chuvas e estiagens. Começaram a sugerir influencias mais sutis: no amor, na guerra, na economia. Surgiu então uma forma de controle social e religioso que em alguns lugares do mundo ainda hoje regem a vida de milhares: a Astrologia. Os que crêem nela que temem as luas de agouro ou uma suposta posição desfavorável do gélido e remoto pedaço de rocha que chamamos Plutão (que nem planeta não é).

O que há de científico na idéia de que os astros, sobretudo os planetas, exercem um influencia previsível em nossas vidas profissionais, afetivas e familiares? Não é estranho pensar que os povos antigos dessem tanto valor a este sistema de adivinhação. Agora, hoje em dia com todo o conhecimento científico que temos sobre a natureza é no mínimo contraditório o executivo com seu terno e gravata que visita um site de astrologia pra saber se Saturno vai influenciar em sua nova linha de produtos. Ou a adolescente no intervalo de uma aula de biologia e física consulta o celular pra saber se o signo dela combina com o garotão dos olhos verdes.

Andrew Fraknoi, um astrônomo americano escreveu um artigo interessantíssimo chamado “Seu kit de defensa conta a astrologia” onde ele lista uma séria de perguntas bem embaraçosas (tudo bem lógico e bem embasado) para quem acredita em horóscopos. O texto foi traduzido para português e pode se acessado em:  http://stalbertus.files.wordpress.com/2008/12/astrologia.pdf.  Uma das questões diz respeito aos planetas, vitais para confecção dos chamados mapas astrais. Urano e Netuno só foram descobertos a partir de 1781 e 1846 respectivamente. Logo em todos os horóscopos feitos antes disso faltavam pelo menos dois planetas. Isso sem falar em Plutão que foi descoberto em 1930 e desde de 2006 não é mais considerado planeta, mas essa é outra conversa.  Isso só para citar uma das questões.  Se você quer ter uma visão mais crítica sobre este mito moderno que é a astrologia não deixe de ler o artigo, é muito instigante.

Mas e o lado espiritual? Li um livro interessantíssimo escrito por Charles Strohmer, um ex-astrologo que teve uma experiência real de conversão ao Senhor Jesus.  Em seu livro “Os Segredos da Astrologia” (Editora Mundo Cristão, 1993) ele admite que não há nada de técnico ou científico no mapa astral. É uma pratica ocultista como outra qualquer. A confecção do mapa astral é apenas uma forma “sofisticada” de invocar espíritos e não tem nada de diferente de um jogo de búzios ou cartas ciganas. Muitos crentes nunca consultariam um vidente, mas dão atenção a horóscopos de revistas e jornais como se fosse uma brincadeira inocente. Parecem ser coisa intelectual e requintada, mas não passa de superstição baseada na adoração dos astros, o medo do futuro, a fascinação do céu estrelado e a falta de escrúpulos de falsos profetas que usam a ignorância para seus próprios interesses.

Pense nisso: O céu sempre é de boa influencia para aqueles que conhecem o Senhor do céu, mesmo durante uma tempestade. O teimoso profeta Jonas que o diga.

Pra saber mais leia também:
Astrologia: Ciência ou Superstição – Linneu Hoffmann – Editado pelo Museu de Astronomia, Rio de Janeiro, 1994.

Há algum assunto científico que gostaria de ver comentado a luz da Bíblia? Este alguma passagem bíblica que gostaria de ver sob uma ótica científica? Escreva para mim. Pode ser o tema desta coluna nos próximos meses. 

Um abraço celeste.

Publicado em Geral | 3 comentários

Buscar conhecimento : é bom ou mau?

Acaso se ensinará ciência a Deus, a ele que julga os excelsos? (Jó 21:22)

Podemos seguir uma linha de pensamento bem simplória só para “praticar” o (mau) hábito de tirar conclusões apressadas. Conhecer é poder.  O poder corrompe. Logo o conhecimento corrompe.  Seria isso sempre assim?  Ou melhor: Precisa ser sempre assim?

Quando a Bíblia fala em conhecimento de forma positiva geralmente se refere a conhecer mais a Deus.  Vamos falar de algo mais próximo do que entendemos hoje por ciência.  O termo ciência quando aparece na Bíblia geralmente se refere ao saber técnico.  O termo aparece com este significado em diversos versos como Êxodo 31:3 e 1ª Reis 7:14.

Não podemos confundir quantidade de informações com conhecimento.  Da mesma forma que um punhado de tijolos não é um edifício, um monte de informações desconexas não significa conhecimento real.  Sabedoria também não é sinônimo de inteligência.  Sabedoria significa saber agir na hora certa e da maneira correta.  

Quando você acha que sabe mais que as outras pessoas surge naturalmente a tentadora idéia de que você é melhor que os outros.  Daí para a vaidade o passo já foi dado. A Bíblia alerta do perigo do orgulho intelectual.  Conhecimento sem amor não é sabedoria.
A ciência incha, mas o amor edifica. (1ª Coríntios 8:1)

Creio que foi o filósofo Sócrates (Grécia, 470-399 AC) que disse: “Só sei que nada sei”.  Ter noção da própria ignorância é a verdadeira sabedoria. Que cruel ilusão é pensar que sabe alguma coisa e descobrir o quanto está errado.  Sabendo o limite do seu intelecto você tem condições de evitar ser seduzido por ele. Geralmente o jovem universitário, assim que entra na universidade, tende a ser um adorador da ciência. Acha que ela pode tudo, explica tudo e sempre evoluí: sempre em frente, sem retrocessos ou becos sem-saída.
Como se a pesquisa não nos levasse através de caminhos tortuosos, como se o conhecimento científico corresse em uma espécie de “freeway” do saber. Como todo procedimento humano, a ciência está sujeita a pressões sociais, econômicas e históricas.  Estas pressões podem atrasar, potencializar ou desviar o desenvolvimento.  Cientistas mais experientes tendem a reconhecer estas limitações. São mais abertos a crítica dos processos científicos. Começam a vislumbrar que a há muita coisa além do conhecimento científico.  Reconhecem que há fenômenos e realidades que escapam ao método científico.  Os testes e validações da ciência não conseguem abarcar tudo o que existe.  É neste âmbito que podemos falar de uma realidade espiritual que não é material, não é química, não é biológica, não pode ser descrita em leis e fórmulas.

A ciência anda por caminhos humanos.  Temos que reconhecer (nós os crentes) que nossas organizações religiosas também sofrem influências humanas.  A sociologia  lida com estas influências, contudo não pode explicar ,de forma total e isenta, o complexo mundo real. Há espaço para existência de coisas que somente a fé pode dar sentido.  A experiência da vida nos mostra outras realidades tão palpáveis como a gravidade ou a lei dos gases apesar de não poderem ser compartilhadas da mesma forma.  Existem experiências subjetiva incapazes de serem registradas, descritas com exatidão, previstas ou reproduzidas.  São experiências pessoais.

Carl Sagan (EUA, 1934-1996), cientista e grande divulgador, em seu romance “Contato” (foi recontado em filme do mesmo nome), conta uma interessante fábula moderna. Na obra, uma cientista cética e um religioso discutem o que é real ou fantasia.  Ela passa por uma experiência pessoal que não deixa registros científicos ou indícios objetivos.  Ela se sente obrigada a reconhecer o valor do tipo de conhecimento de que os religiosos falam.  A experiência pessoal é o cerne da fé.  Só porque eu não posso dar provas objetivas (impessoais, concretas e materiais) da existência de uma manifestação espiritual não quer dizer que ela não exista.  O testemunho pessoal dos cristãos tem transformado vidas pelo mundo a fora.  Isto não pode ser desprezado.

Buscar conhecimento intelectual é bom desde que isso não seja a razão de sua existência.  Não faça do intelecto um deus.  Se o saber te ajuda a viver melhor consigo mesmo e com os outros está tudo bem, você está no caminho certo.  Se, por outro lado, você vive numa espécie de culto ao próprio miolo; você corre risco de ser o sábio do texto de Jó 15:2 (leia). 
* * *

O ano novo que começa será o Ano Internacional da Astronomia, comemoramos os 400 anos das primeiras observações telescópicas.  No próximo artigo vou falar um pouco de Astronomia e Bíblia.  Tem um monte de referências interessantes, aguarde.  Fique na Paz
Publicado em Geral | Deixar um comentário

Ciência e Fé: Conflito ou Diálogo?

Muitas vezes as pessoas me perguntam como eu concilio minha fé cristã com minha profissão científica.  É tão fácil para mim que às vezes não me dou conta que isso foi construído ao longo de uma vida de estudos e experiências.  Certamente não é fortuito. Nasci em lar evangélico, ouvindo minha mãe cantar hinos e indo à EBD semanalmente. Construí ao longo da minha formação espiritual e acadêmica uma visão bem clara dos limites de confronto e pontos de contato entre a fé e a ciência.  Claro que nem sempre deve ter sido tão fácil mas, em nenhum momento foi uma questão de vida ou de morte. Tanto é assim que não lembro de nenhum dilema que tenha tirado o meu sono.


As pessoas a minha volta às vezes tinham posições bem conflitantes mas felizmente tive bons professores (de ciência e fé) que sempre me chamaram a atenção à tolerância e disposição de uma mente aberta e não dogmática. Curiosamente conheci pessoas que endeusavam a Ciência buscando nela resposta para toda sua vida como uma panacéia da felicidade.  Por outro lado conheci pessoas que demonificavam a Ciência como uma espécie de Anti-Fé com o propósito de acabar com todo tipo de crença.  Conheci pessoas que consideravam o estudo secular algo maligno. Por outro lado, conheci pessoas que julgavam religião coisa para ignorantes. Felizmente, bem cedo vislumbrei o lugar particular da ciência e da fé na minha concepção de mundo. Apesar de ambas se basearem na verdade seus métodos, finalidades e linguagens são totalmente distintos. A maior confusão que se pode criar sobre o assunto é a forma errada de interpretar a Bíblia, tanto por cientistas como por crentes.  Isto gera uma oposição desnecessária entre Fé e Ciência. Usar o mesmo critério de medida para o texto bíblico e o conteúdo científico é um desrespeito a ambos.

Poderíamos começar esta coluna distinguindo claramente como entender as Escrituras num contexto correto, sem mistificações, sem exageros e sem preconceitos. Dois grandes cientistas que admiro tinham posições bem distintas sobre a interpretação da Bíblia. Eles foram vitais para a formação e consolidação do Método Científico, a base da ciência moderna.  Seus nomes: Galileu Galilei e Isaac Newton.  Ambos eram (até onde se sabe) cristãos mas, viam o papel da Palavra de Deus de forma totalmente distinta. Uma curiosidade: Newton nasceu no mesmo ano em que Galileu morreu. Sob vários aspectos Newton deu prosseguimento aos trabalhos galileanos, lançando as bases da moderna Física e influenciando todo o pensamento científico atual.

Vejamos algo que se escreveu sobre Galileu:
“…as diversas formas de conhecer são aproximações do conhecimento intuitivo de Deus, que tudo abarca. Entre o pensamento humano e o pensamento divino não pode haver contradição e, por conseguinte, afirma Galileu, não pode haver contradição entre a Bíblia e a Ciência…Galileu responde que a Bíblia não deve ser interpretada literalmente em questões científicas; a Bíblia procura a salvação das almas; ensina come si vadia al cielo e non come vadia il cielo (como se vai para o céu e não como vai o céu)…”
(extraído de http:// www.cipedya.com/web/FileDownload.aspx?IDFile=161249)

Na visão de Galileu a Natureza e a Escritura, ambas, são obras de Deus. São dois livros escritos em linguagens diferentes, com finalidades diferentes, não se pode lê-los da mesma forma. Quando há erro ou incoerência duas possibilidades podem estar ocorrendo juntas ou separadamente. Primeiro: nossa interpretação da Escritura pode estar comprometida e não  enxergamos o real sentido do texto. Segundo: aqueles que estudam a Natureza ainda não têm dados suficientes ou, instrumental teórico para descrever os fenômenos corretamente.

Para compreender a Bíblia em sua essência precisamos estar atentos à época em que o texto foi escrito. Não podemos perder de vista os contextos cultural, lingüístico e histórico. Usualmente a Bíblia usa metáforas, figuras verbais, para comunicar ensinamentos morais e espirituais. Você pode achar informação científica na Bíblia? Sim, mas não é esse o seu objetivo. Galileu pensava bem assim.  Posso me considerar um galileano. Já Sir Isaac Newton buscava informação científica literalmente na Bíblia. Dizem que morreu obcecado pela idéia de descobrir a geometria do Inferno. Seu pensamento mecanicista influenciou por um longo tempo o pensamento ocidental. Talvez esteja aí a raiz do conflito moderno das idéias acerca da Bíblia. Muitos cientistas e crentes querem entender a Bíblia ao pé da letra dando mais valor ao símbolo do que ao significado.

Em breve gostaria de conversar sobre o saber intelectual e a : Eles são excludentes? Saber demais envaidece? Devemos buscar conhecimento? Com que intensidade?
Aguarde o próximo artigo desta coluna.  Fique com Deus e com saúde: ore, mas não deixe  de ir ao médico se for preciso :)

Algumas sugestões de leitura:

Publicado em Geral | Deixar um comentário